A Arquitetura e a sociedade do desempenho

Rafael Tavares

As redes sociais se tornaram um meio de promover a igualdade entre profissionais liberais por balizarem através de algoritmos uma sensação de “simetria” na forma como é difundida a produção de cada um. Tomando como exemplo o Instagram, uma das redes sociais mais utilizadas no momento e também uma ferramenta de trabalho para grande parte dos profissionais. Nela, independentemente da produção, do escritório ou do tipo de serviço oferecido, as imagens são mostradas com o mesmo tamanho e da mesma forma sem nenhuma distinção. Supostamente, grandes e pequenas empresas seriam tratadas de modo horizontal. A única coisa que o profissional deveria fazer seria compartilhar ao máximo sua produção do momento, mantendo-se assim em constante exposição.

A arquitetura não é a profissão que mais sofre com a recente “uberização” e precarização do trabalho que vivenciamos atualmente, mas nossos profissionais têm uma relação peculiar com tal fenômeno – em parte devido a quem a arquitetura vem servindo nas últimas décadas. O que difere o arquiteto dos demais campos é o trato da imagem pessoal, fundida à imagem do trabalho em si. Em grande parte, o arquiteto acredita estar inserido em um grupo superior de trabalho, talvez devido a construção da imagem do gênio criativo solitário que foi desenvolvido nos últimos séculos, reforçada pela academia e pela cultura dos “arquitetos-estrela”. O profissional de Arquitetura é socialmente atrelado a uma imagem narcísica, amplificada pela simbologia de mesmo viés própria dessas redes sociais. O arquiteto cria uma identidade pessoal e profissional para atingir determinado nicho social.

O Filosofo Byung-Chul Han, em seu livro “A sociedade do cansaço” (Vozes, 2014), afirma que a sociedade do século 21 é uma sociedade de desempenho, em que os indivíduos são “empresários de si mesmos”. Na opinião do filosofo, “hoje a pessoa explora a si mesma achando que está se realizando; é a lógica traiçoeira do neoliberalismo que culmina na síndrome de burnout”. É “a alienação de si mesmo”. Devido a essa indiferenciação entre senhor e servo, os profissionais liberais – dentre eles os arquitetos – hoje se vangloriam do tempo de trabalho que acumulam, da falta de tempo de ócio e das poucas horas de sono dormidas. Tudo compartilhado nas redes sociais, fazendo parecer que o sucesso e o fracasso são responsabilidade somente do indivíduo, desconsiderando inúmeros fatores econômicos e sociais que determinam ambos.

O sujeito que adere a essa crença da glamourização do trabalho excessivo e suas infinitas possibilidades sofre consequências diretas em sua saúde. Entre os principais, podemos destacar o burnout já mencionado, a depressão e o suicídio. Em estudo da ISMA-BR (International Stress Management Association no Brasil), consta que mais de 70% dos brasileiros entre 25 a 65 anos sofrem com algum grau de estresse. Desse total mais de 30% sofre com a síndrome de burnout, que significa “um nível de estresse devastador”. Segundo a Associação, “o burnout causa exaustão física e mental acarretando problemas emocionais e de relacionamento na vida pessoal e profissional. A pessoa se sente, literalmente, sem saída”. É um estado caracterizado por dificuldade de concentração, insônia, isolamento, alterações repentinas de humor, negatividade constante, sentimentos de fracasso, insegurança, derrota e desesperança, assim como por sintomas físicos como dor de cabeça frequente, alterações no apetite, fadiga, pressão alta, dores musculares, problemas gastrointestinais ou alteração nos batimentos cardíacos.

Tal quadro está na raiz social de soluções pessoais extremas, dentre elas o suicídio. Segundo levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), por ano morrem no mundo quase 800 mil pessoas por suicídio, sendo atualmente a segunda maior causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos de idade.

O ócio e o sono estão ligados diretamente às nossas repostas físicas e criativas. Walter Benjamin, ensaísta e filosofo associado à Escola de Frankfurt e à Teoria Crítica, escreveu em seu ensaio “O narrador”: “Se o sono é o ponto mais alto da distensão física, o ócio é o ponto mais alto da distensão psíquica. O tédio é o pássaro de sonho que choca os ovos da experiência”. Portanto o não fazer é o momento em que estamos mais criando, onde se estabelecem os nossos saberes acumulados que criarão novas soluções. Como a arquitetura parte de uma resposta subjetiva a situações diversas apresentadas, qual resposta estará disponível se a mente não estiver em um estado mental saudável?

Talvez a reposta para essa situação de fragilidade mental já tenha sido dada por Oscar Niemeyer o arquiteto brasileiro mais ilustre em uma das suas frases mais famosas: “O mais importante não é a arquitetura, mas a vida, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar”.


Rafael Tavares é arquiteto e urbanista formado pela PUC-GO e faz parte do BrCidades, atuou no setor privado e no Sistema S.